Béradêro

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Diário do Jequi

Por questões de ordens, sempre é bom dividir as coisas por épocas diferentes. Os geólogos escalam o tempo do planeta Terra por eras, que normalmente demoram um bocado cada uma. Os historiadores preferem os sistemas, cujo início se dá quando o anterior entra em crise e é preciso uma nova forma de tocar o mundo. Os mestres das letras adotam os movimentos literários, tais como Barroco, Classicismo e Romantismo preferencialmente caminhando junto à História.

Todas as artes são assim. Filosofia, Política, Matemática, Ciência, Tecnologia, Geografia, Pintura, Teatro, Fotografia e Música. Sei mais desta última, por ser músico de carteirinha e adorador de tão belas melodias dedilhadas ao longo de meu meato acústico externo e tocadas com fervor na cóclea e córtex auditivo, na área do lobo temporal.

Dizem que faz tempo pra dedéu que a música pairou por aqui. Desde a junção dos jesuítas com os indígenas, por ali. Foi o primórdio da música brasileira, passando pelo Padre José Maurício Nunes Garcia, Dom Pedro I, Francisco Manuel da Silva, Carlos Gomes, Alberto Nepomuceno, Heitor Villa Lobos e Guerra Peixe, do lado clássico; e Joaquim Antônio da Silva Calado, Anacleto de Medeiros, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Pixinguinha, do lado popular.

A partir dos anos 30, a espinha dorsal da Música Popular Brasileira começa a se formar com a famigerada Era do Rádio, indo até meados dos 50 e carregando consigo a mais bela invenção brasileira, o samba. Foram extremamente importantes Noel Rosa, Cartola, Donga, Ary Barroso, Lamartine Babo, Assis Valente, Braguinha, Cauby Peixoto, Dolores Duran, Ângela Maria e Maysa, entre tantos outros gênios.

A partir dos anos 60, unindo a arte de compor com a arte de poetar, vem a Bossa Nova e, posteriormente, a Tropicália e a Jovem Guarda. Surgem desses os maiores compositores do Brasil de todos os tempos, municiados pela ditadura que censurava e batia e pelos belíssimos festivais de música ao ar livre. São seus filhos Tom Jobim, João Gilberto, Nara Leão, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

Os anos 70 chegaram para matar a pau. Além da continuação dos trabalhos dos artistas supracitados, o calo da sombra negra que assombrava a liberdade de expressão fez ferida em muitos novos artistas que surgiam com uma ferocidade de dar gosto. Foi aí também o surgimento do que se convencionou chamar MPB. Elis Regina, João Bosco, Aldir Blanc, Belchior, Raul Seixas, Rita Lee, Ney Matogrosso, Jorge Ben, Tim Maia, Elomar, Geraldo Azevedo, Sérgio Sampaio, Ednardo, Fagner, Zé Ramalho, Alceu Valença, entre outros e outras mais.

Os anos 80 foram marcados pelo rock brasileiro. As bandas surgiram na medida em que havia uma grande explosão demográfica no Brasil. Era o começo da abertura política, e o começo das festas aos montes. O começo da sexualidade explícita. Uns chamam de década perdida, mas não tem como ofuscar Gonzaguinha, Simone, Lulu Santos, Elba Ramalho, Marina Lima, Amelinha, Oswaldo Montenegro e Tunai. E também não tem como tirar o brilho da Blitz, RPM, Paralamas do Sucesso, Titãs, Ira, Camisa de Vênus, Engenheiros do Hawaii, Capital Inicial, Nenhum de Nós, Biquíni Cavadão ou Legião Urbana. Não tem nada de década perdida...

A partir do começo dos anos 90 parece que a música de qualidade surtou. O que surgiram de duplas sertanejas no mercado não está no gibi. Algumas ficaram tão famosas que até viraram filme. No embalo apareceu o pagode de má qualidade com umas dancinhas esquisitas e pseudo-cantores. O axé começou bem com Daniela Mercury, Timbalada, Luiz Caldas e Chiclete com Banana, mas quando veio É o tchan... Não podia esperar mais que palavrões, só que surgiram Lacraia e MC Créu. Danou-se tudo!

O grande problema é achar que nada hoje presta. Existem músicas de qualidade sim, além de que nem todo mundo morreu porque a década acabou. Zeca Baleiro, Los Hermanos, Skank, Lenine, Paulinho Moska, Cordel do Fogo Encantado, Roberta Sá, Maria Rita, Seu Jorge, O Rappa, Vander Lee, Marina Machado e Rita Ribeiro são exemplos da boa nova safra.

Outro cara excepcional da chamada nova geração é Francisco César Gonçalves, mais conhecido por Chico César. O texto de hoje é dedicado a ele, que faz quarenta e cinco anos e muita música boa pra gente ouvir. Depois de um começo tímido no Nordeste, arrebentou com À primeira vista e Mama África, passando por lindíssimas canções como Dança, Templo, Saharienne, Onde estará o meu amor, Pensar em você e todo o álbum De uns tempos pra cá. Parabéns, Catolé do Rocha - praça de guerra onde o homem boda e berra, por originar um fruto tão ilustre quanto o nosso novo Chico.

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