Menino bordado
Nunca achei que os cariocas Los Hermanos fossem a banda de uma música só, devido à badalada Anna Júlia. Desde o primeiro disco da banda, do final de 1997, podiam-se ouvir sonoridades interessantíssimas como Primavera, Quem Sabe, Tenha Dó e Pierrot.
É inegável o sucesso que Anna Júlia proporcionou à banda, pois a música foi ouvida em todo território nacional, inclusive sendo regravada por gente dos mais altos quilates populares como Frank Aguiar e Teodoro & Sampaio. Mas também é inegável que a própria banda sabia de suas potencialidades, logo, não queria ficar à sombra de música apenas. Música esta que é considerada por muitos como a pior dos Los Hermanos, mas isso é coisa de fã que não suporta ver seus ídolos vinculados à uma obra exposta para quem quiser apreciá-la. E existem muitos fãs da Legião Urbana que não suportam Pais e Filhos, muitos fãs dos Engenheiros do Hawaii que não conseguem escutar Toda Forma de Poder, raulseixistas que não aguentam mais Gitâ e por aí vai.
Do final de 2000 até o começo de 2002, eu havia pensado que os Los Hermanos tinham acabado. Eles simplesmente sumiram de tudo. Não ouvia mais suas antigas músicas no rádio muito menos tinha notícias de alguma nova canção no pedaço. Foi quando apareceram na MTV quatro caras barbudos com uns instrumentos de sopro estranhos sendo entrevistados em relação ao novo disco lançado em 2001, cujo título era O Bloco do Eu Sozinho e do qual estavam produzindo um clipe esquisito. Estava ali a sumida banda apresentando a todos o primeiro single de uma nova fase (por assim dizer), Todo Carnaval Tem Seu Fim.
Confesso que gostei, à primeira vista. Ainda mais quando um colega de faculdade me presenteou com o cd. Num primeiro instante, e por muito tempo este primeiro instante durou, eu ouvia apenas o single supracitado, A Flor, Sentimental e Retrato Pra Iaiá. Cheguei até fazer uma coletânea caseira misturando Los Hermanos, Maskavo e Detonautas.
Mas o sino do fascínio soou de verdade quando vi e ouvi mais um clipe esquisito baseado na obra A Metamorfose de Kafka chamado Cara Estranho. Logo a gente pensa - taí uma banda pra se acompanhar. E não deu outra! Eu e meu irmão fomos apresentando um ao outro as músicas baixadas na internet do álbum Ventura e redescobrindo preciosidades deixadas pra trás. Do Bloco, ainda havia Casa Pré-Fabricada, Deixa Estar, Fingi Na Hora Rir e Adeus Você. Do primeiro disco restavam Descoberta, Sem Ter Você e Outro Alguém. E agora tinha tudo, Samba A Dois, O Vencedor, Tá Bom, Último Romance, Além Do Que Se Vê, Conversa De Botas Batidas, Deixa O Verão, Um Par e De Onde Vem A Calma.
Quando surgiu o disco 4, eu já estava em êxtase musical com o potencial daquela banda carioca que foi sugerida por muitos como de uma música só. E muito dessa sonoridade interessante e inteligente vem de um cara excepcionalmente bom, o guitarrista, violonista, letrista, arranjador e cantor Marcelo Camelo, que hoje completa seus trinta anos e com a certeza de que muito tem ainda para nos oferecer (vide o maravilhoso disco solo Sou, que visto de cabeça pra baixo lê-se nós). Parabéns, Camelo! O Paul MacCartney dos Los Hermanos! O Chico Buarque da nova geração! O namorado de Mallu Magalhães... Tinha que ter!



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